SND & Demências
Relação entre Solidão Não Desejada e Demências
A relação que podemos estabelecer entre Solidão Não Desejada e as demências é circular: por um lado, a solidão pode potenciar ou acelerar a existência de declínio cognitivo; por outro, um diagnóstico de demência pode exacerbar sentimentos de solidão, não só intrínsecos (um afastamento dos relacionamentos sociais ao compreender as suas próprias dificuldades crescentes) mas também extrínsecos, com uma rejeição da própria sociedade devido ao estigma ainda existente.
A Solidão Não Desejada:
Na Pessoa com Demência
De facto, e de acordo com o que vimos em cima, alguns estudos demonstram que Pessoas com Demência sentem-se, no geral, sozinhas, e que à medida que a Demência evolui, a sua rede social tem tendência para diminuir (Carbone et al., 2022).
Estudos demonstram que as Pessoas com Demência irão mais provavelmente experienciar solidão emocional do que solidão social – independentemente do estadio em que se encontrem. As investigações permitem-nos identificar alguns factores que contribuem para este sentimento de solidão nas Pessoas com Demência (Yanguas et al., 2020):
- Têm dificuldade em manter uma conversa (compreender o outro, encontrar as palavras certas);
- Podem desorientar-se, ou até mesmo perder-se, a fazer actividades fora de casa;
- Participam menos nos processos de tomada de decisão;
- Têm dificuldade em viver uma vida com sentido;
- Têm medo de ser um fardo para os outros;
- Sentem vergonha das suas dificuldades;
- Sentem-se, por vezes, ignoradas, pouco valorizadas e reconhecidas;
- Sentem a sua liberdade condicionada para a participação social;
- Não se sentem escutadas/validadas nas suas escolhas e preferências
- Afastamento dos amigos e familiares
No cuidador familiar
Os cuidadores familiares de Pessoas com Demência sacrificam frequentemente o seu tempo pessoal, bem como o tempo investido nas suas próprias relações e comunidades, levando a um aumento da sobrecarga emocional (Sörensen et al., 2006), do isolamento social e da solidão (Pinquart & Sörensen, 2003). Esta falta de apoio social adequado pode potenciar os sentimentos de solidão, especialmente quando confrontados com desafios no acto de cuidar (Duggleby et al., 2009).
Assim, podemos identificar diversos factores que contribuem para que os cuidadores familiares de Pessoas com Demência sintam solidão (Yanguas et al., 2020):
- Elevado número de horas dedicado à prestação de cuidados;
- Alterações no projecto de vida (muitos cuidadores não equacionaram cuidar de alguém);
- Falta de socialização, momentos de lazer e autocuidado;
- Falta de apoio emocional dos familiares e pessoas próximas;
- Afastamento dos amigos;
- Tornar-se no cuidador principal, sem apoio de familiares;
- Elevada sobrecarga e níveis de stress percebido;
- Falta de recursos e apoios na comunidade (formais e informais)
No cuidador profissional
A elevada carga de trabalho por vezes exigida ao cuidador profissional, contribui para a deterioração das relações profissionais, fazendo com que os cuidadores se sintam sozinhos e excluídos e contribuindo para sentimentos de Solidão Não Desejada (Kalanlar & Alici, 2019). Estudos indicam ainda que o elevado número de horas de trabalho realizadas por estes profissionais, muitas vezes em regime de internato, contribuem para uma deterioração das suas próprias relações sociais, padrões de sono e de alimentação e hábitos familiares.
Solidão Não Desejada e Contenções
As consequências negativas da utilização recorrente de contenções estão amplamente descritas na literatura, chegando a causar a morte (Miles & Irvine, 1992). A utilização de contenções é um atentado directo à dignidade, autonomia, auto-estima e bem-estar (Comité Interdisciplinar de Sujeciones, 2014).
De facto, as contenções contribuem de forma muito significativa para o isolamento social, retirando efectivamente à Pessoa a autonomia para procurar e integrar relações sociais significativas. Potenciam igualmente o estigma social, levando ao afastamento das pessoas que rodeiam a pessoa contida, promovendo ainda mais o isolamento social, a Solidão Não Desejada e as suas consequências nefastas.
Solidão Não desejada nos Idosos
Os idosos são, como vimos anteriormente, uma das populações com maior incidência de Solidão Não Desejada. Isto poderá atribuir-se a diversos factores:
- Alterações de estado civil, devido a viuvez ou divórcio;
- Perdas de família e amigos, devido a morte;
- Reforma e perda do círculo social relacionado com a actividade laboral;
Estes factores são exacerbados no caso de alterações significativas de saúde, nomeadamente todas as que impeçam a mobilidade, bem como rendimentos baixos, que diminuem a possibilidade de procura de envolvimento em actividades.
De facto, idosos em situações de precariedade, que vivem sozinhos, e que auferem rendimentos baixos, parecem reunir as condições de tempestade perfeita para o sentimento de Solidão Não Desejada e devem, por isso, ser alvo de intervenções psicossociais eficazes (Fried, 2020).
Solidão Não Desejada nas instituições para idosos
A Institucionalização em ERPI é um acontecimento significativo que proporciona um conjunto de alterações na dinâmica e rotina social da pessoa idosa. Estudos demonstram-nos que a auto-estima e sintomatologia depressiva apresentada pelos residentes de instituições como ERPI está intimamente relacionada com o apoio social percebido da família, actividade religiosa pública e a duração da estadia na instituição. Adicionalmente, parece ser claro que o apoio social percebido é importante para a integração psicológica do idoso nesta nova realidade. As redes sociais dentro da própria instituição, contudo, parecem ter um efeito determinante na sintomatologia depressiva e Solidão Não Desejada das pessoas institucionalizadas, independentemente do seu nível de autonomia ou comorbilidades (Fessman & Lester, 2000). Este facto revela a importância do processo de integração na instituição, e da necessidade de fomentar laços e relações de qualidade dentro da mesma.
Referências
Carbone, E., Piras, F., Pellegrini, F. F., Caffarra, P., & Borella, E. (2022). Individual differences among older adults with mild and moderate dementia in social and emotional loneliness and their associations with cognitive and psychological functioning. BMC Geriatrics, 22(1), 859. https://doi.org/10.1186/s12877-022-03517-2
Comité Interdisciplinar de Sujeciones. (2014). Documento de Consenso sobre Sujeciones Mecánicas y Farmacológicas. https://www.segg.es/media/descargas/Documento_de_Consenso_sobre_Sujeciones.pdf
Duggleby, W., Williams, A., Ghosh, S., Moquin, H., Ploeg, J., Markle-Reid, M., & Peacock, S. (2016). Factors influencing changes in health related quality of life of caregivers of persons with multiple chronic conditions. Health and Quality of Life Outcomes, 14(1), 81. https://doi.org/10.1186/s12955-016-0486-7
Fessman, N., & Lester, D. (2000). Loneliness and Depression among Elderly Nursing Home Patients. The International Journal of Aging and Human Development, 51(2), 137–141. https://doi.org/10.2190/5VY9-N1VT-VBFX-50RG
Fried, L. (2020). Designing a New Social Infrastructure to Combat Loneliness in Aging Adults. Generations Journal, 44(3).
Kalanlar, B., & Kuru Alici, N. (2020). The effect of care burden on formal caregiver’s quality of work life: a mixed‐methods study. Scandinavian Journal of Caring Sciences, 34(4), 1001–1009. https://doi.org/10.1111/scs.12808
Miles, S. H., & Irvine, P. (1992). Deaths Caused by Physical Restraints 1. http://gerontologist.oxfordjournals.org/
Pinquart, M., & Sörensen, S. (2003). Differences between caregivers and noncaregivers in psychological health and physical health: A meta-analysis. Psychology and Aging, 18(2), 250–267. https://doi.org/10.1037/0882-7974.18.2.250
Sörensen, S., Duberstein, P., Gill, D., & Pinquart, M. (2006). Dementia care: mental health effects, intervention strategies, and clinical implications. The Lancet Neurology, 5(11), 961–973. https://doi.org/10.1016/S1474-4422(06)70599-3
Yanguas, J., Pérez-Salanova, M., Puga, M. D., Tarazona, F., Baltar, A. L., González, M. M., Chaparro, M., & Pinazo, S. (2020). O Desafio da Solidão nas Pessoas Idosas. https://fundacaolacaixa.pt/documents/387763/702557/o-desafio-da-solidao-nas-pessoas-idosas-ebook.pdf