Intervenção profissional na SND

Como Avaliar a Solidão Não Desejada

O sentimento de Solidão pode aumentar o risco de depressão, de demência, de auto-percepção de uma saúde física e mental mais débil e até o risco de uma morte precoce, por esse motivo é tão importante medirmos a Solidão. Ao avaliarmos podemos estar a intervir mais precocemente junto de pessoas que sintam Solidão Não Desejada e/ou Isolamento Social.

Existem diversas escalas na Europa que foram desenvolvidas para medir a solidão (Yanguas et al., 2020):

  • De Jong Gierveld Loneliness Scale (1980) – foi inicialmente desenvolvida para investigação, é constituída por 11 itens e a sua versão reduzida por 6 ou 3 itens. Os autores são De Jong Gierveld & Kamphuis.
  • Loneliness Questionnaire (1997) – constituído por 30 itens. Autores Rokach & Brock.
  • The Campaign to End Loneliness Measurement Tool (2014) – constituída por 3 itens. Desenhada por diferentes pessoas e organizações.
  • Social and Emotional Scale for Adults (SELSA) (2004) – Constituída por 15 itens. Autores DiTommaso, Brannen & Best.

 

Em Portugal existem outras escalas adaptadas e validadas:

  • UCLA-16 Loneliness Scale (Pocinho, Farate & Dias 2005) – escala de heteroadministração, composta por 16 itens e apresenta duas dimensões: o isolamento social e afinidades. Esta escala foi validada para a população idosa.
  • UCLA Loneliness Scale (ULS-6) (Neto, 2014) – forma abreviada da UCLA Loneliness Scale que se encontra validade para a população idosa em contexto instituicional.
  • SELSA-S (Fernandes & Neto, 2009) – escala composta por 15 itens e avalia a solidão social e emocional. Encontra-se validada para estudantes e população idosa.
  • Questionário de Avaliação da Solidão (Bastos, 2005) – instrumento de autorrelato, que resulta da conjugação da Louvain Loneliness and Aloneness scale for Children and Adolescents (LACA) e a Social and Emotional Loneliness Scale for Adults (SELSA), sendo constituída por 60 itens divididos em 5 sub-escalas (S-Romântica; S-Pais; S-Pares; Afinidade; Solitude).

 

Será interessante, futuramente, existir mais investigação e consequente validação de outras escalas e/ou para diferentes faixas etárias. A Solidão Não Desejada e o isolamento social pode ter um impacto negativo na nossa saúde física e mental.

Modelos e Propostas de Intervenção na Solidão Não Desejada

Os efeitos nefastos da solidão na saúde e bem-estar são bem conhecidos. Neste sentido, têm sido desenvolvidos várias iniciativas, programas e intervenções, em contexto comunitário e institucional, com o objetivo de prevenir e mitigar a solidão.

O Centro de Investigação da Comissão Europeia apresentou em 2023 um relatório (Casabianca, Nurminen & Thoma-Otremba, 2023) que descreve o mapeamento das intervenções na União Europeia. Foram encontradas 328 intervenções, sendo que os países do Norte têm o maior número de intervenções por milhão de habitantes e 53% das iniciativas são dirigidas às pessoas com mais idade

Apresentamos, de seguida, o tipo de intervenções mais utilizadas:

  • “Conectar as pessoas“ – Intervenções que visam criar ou aumentar a rede de contactos através da facilitação de encontros individuais ou em grupo (40,5%)
  • “Atividades sociais/de grupo” (25,9%)
  • “Aumento da Consciencialização” (12,5%)
  • “Linha de apoio telefónico” (11,9%)
  • “Apoio Psicológico” (7,3%)
  • “Visitas domiciliárias” (7,0%)
  • “Soluções tecnológicas” (7,0%)
  • “Estratégia” (6,4%)
  • “Befriending” – desenvolvimento de relações de amizade realizado com visitas domiciliárias por voluntários (5,5%)
  • “Orientação” (4,6%)
  • “Construção de Comunidades” (4,6%)
  • “Competências sociais” (4,0%)
  • “Alojamento partilhado” (3,4%)
  • “Coordenação” (3,4%)
  • “Deteção do risco” (2,7%)
  • “Intervenções baseadas na cultura” (2,4%)
  • “Outras” (0,9%)

 

No que diz respeito à eficácia podemos dizer que existem intervenções eficazes na solidão, em particular as intervenções psicológicas juntamente com intervenções de suporte social, através de redes sociais e estimulando actividades sociais. Contudo, e baseado nos estudos não podemos identificar qual a intervenção mais eficaz (Beckers, Buecker, Casabianca & Nurminen, 2022).

As intervenções na solidão estão mais estudadas nas pessoas com idade mais avançada do que nos jovens. Ainda assim, existem diversos possíveis factores para a falta de resultados conclusivos, tais como estudos com amostras pouco significativas, intervenções que consideram aspectos muito diferentes (ex.: foco da intervenção, cenário da intervenção, formato de entrega, duração das intervenções, etc) e porque a solidão é um sentimento muito subjectivo que pode ocorrer devido a diferentes causas e baseada em diferentes necessidades individuais. Por essas razões as intervenções sobre solidão podem ser mais eficazes quando adaptadas às necessidades dos participantes da intervenção.

Em contexto institucional encontramos ainda outras intervenções (Yanguas et al, 2020):

  • Workshop de Jardinagem e Horticultura
  • Terapia Assistida por Animais;
  • Videoconferência para a Comunicação com Familiares;
  • Intervenção Cognitiva;
  • Terapia do Humor;
  • Terapia da Reminiscência;
  • Programas de Exercício Físico.

 

Todas estas intervenções foram consideradas como tendo um nível de eficácia moderado. Alguns investigadores propõem uma actuação preventiva sobre a solidão, evitando o isolamento, de forma a fomentar as relações sociais ao longo de todo o ciclo de vida.

A solidão pode ser combatida, também, através do combate ao preconceito sobre as minorias, sejam elas minorias do foro sexual, racial ou da idade. O Idadismo é o terceiro preconceito que mais prejudica a saúde física e mental e a qualidade de vida das pessoas.

Referências

  1. Bastos, M. T. (2005). A solidão e os processos de vinculação nos jovens e sua interrelação com a utilização da internet. Tese de Doutoramento, Universidade do Porto, Porto.

  2. Fernandes, H. & Neto, F., (2009). Adaptação portuguesa da escala de solidão social e emocional (SELSA-S). Psicologia Educação Cultura. ISSN 0874-2391. XIII:1, p. 7-31

  3. Neto, F. (2004). Psychometric analysis of the short-form UCLA Loneliness Scale (ULS-6) in older adults. European Journal of Ageing. 11:313–319. DOI 10.1007/s10433-014-0312-1

  4. Pocinho, M., Farate, C., & Dias, C. A. (2010). Validação Psicométrica da Escala UCLA-Loneliness para Idosos Portugueses. Interações: Sociedade E As Novas Modernidades, 10(18). Obtido de https://www.interacoes-ismt.com/index.php/revista/article/view/304

  5. Yanguas, Javier et al.(2020). O desafio da solidão nas pessoas idosas. Fundação La Caixa. http://www.campaigntoendloneliness.org.uk

  6. Beckers, A., Buecker, S., Casabianca, E.J. and Nurminen, M. Effectiveness of interventions tackling loneliness, Publications Office of the European Union, Luxembourg, 2022, doi:10.2760/277109, JRC130944.

  7. Casabianca, E., Nurminen, M., Thoma-Otremba A. (2023). Mapping of loneliness inerventions in the EU. Fairness policy brief 6/2023. European Comission – Join Research Centre, JRC134255

  8. Yanguas, Javier et al.(2020). O desafio da solidão nas pessoas idosas. Capitulo 7 – Intervenção na solidão (Dra. Sacramento Pinazo). Fundação La Caixa.