Estudos sobre a Solidão Não Desejada em Portugal

Tendo em conta que a solidão é considerada a epidemia do século XXI, alguns estudos procuraram compreender o fenómeno e encontrar a sua prevalência.

De seguida iremos reportar os resultados mais significativos, a nível europeu e em Portugal.

O maior inquérito realizado até ao momento foi conduzido pelo Centro de Investigação da Comissão Europeia, em 2022, com o objetivo de promover uma melhor compreensão sobre o fenómeno. A amostra contou com mais de 25.000 pessoas, com mais de 16 anos, em todos os países membros da União Europeia 1.

No que diz respeito aos resultados, o estudo mostra que a solidão afeta uma parte substancial da União Europeia. Mais especificamente, 13% da amostra relatou sentir-se sozinho quase sempre ou sempre e 36% respondeu algumas vezes 2.

A solidão foi mais frequente na Irlanda (20%), seguida de Luxemburgo, Bulgária e Grécia, com 16% a 17%, sendo que os níveis mais baixos foram observados no Países Baixos, República Checa, Croácia e Áustria, com menos de 10% da amostra. Também se notaram valores mais elevados em zonas rurais do que urbanas. Ainda assim, os autores enfatizaram que as diferenças encontradas nos resultados podem estar relacionadas com as diferenças culturais, demográficas e da amostragem.

Em Portugal, 12% a 13% dos inquiridos referiu sentir solidão a maior parte do tempo.

No mesmo ano foi realizada uma meta-análise do British Medical Journal que revelou que os países no Norte da Europa são os menos solitários e os países da Europa de Leste apresentam maiores níveis de solidão, diferenças que podem ser atribuídas às características demográficas, contexto económico, qualidade dos serviços de saúde, participação e suporte social 3.

E porque a Solidão Não Desejada afeta todas as idades, quando olhamos atentamente para as faixas etárias mais afetadas, a Organização Mundial de Saúde 4 estima que 1 em cada 4 pessoas com mais idade experienciam isolamento social e entre 5% a 15% dos adolescentes sentem solidão.

No que diz respeito às pessoas com mais idade, dos 162 milhões de pessoas que vivem na Europa, estima-se que quase 65 milhões sofram de solidão 5. Em Espanha, atinge 39,8% em pessoas com mais de 65 anos e 48% em pessoas com mais de 80 anos. Em França, 27% em pessoas com mais de 65 anos.

Em Espanha, a Solidão Não Desejada nos mais jovens é também alvo de preocupação.

Um estudo promovido pela Fundación ONCE em parceria com Ayuda en Acción e divulgado pelo Observatório Estatal da Solidão Não Desejada revela que, em 2023, 13,4% da população sofre de solidão e que esta afeta principalmente jovens entre 16 e 29 anos, atingindo 25,5% 6.

A falta de convivência familiar ou social é apontada como a principal causa de solidão (57,3%), seguida por distância geográfica da família (11,9%) e a falta de compreensão das pessoas próximas (8,2%).

O estudo destaca que 23% dos inquiridos sentem solidão ao longo do dia, e 21% sentem-se mais sozinhos nos fins-de-semana.

A pesquisa também destaca os impactos negativos da solidão na saúde, sendo associada a doenças, riscos de saúde mental e morte prematura, resultando num custo de 14,141 milhões de euros (1,17% do PIB espanhol).

E em Portugal? O que dizem os estudos relativamente à Solidão Não Desejada nas diferentes faixas etárias?

Um estudo português, levado a cabo por Constança Paúl e Óscar Ribeiro em 2009 7, realizado com uma amostra de 1200 pessoas, entre os 50 e 101 anos, revelou que a prevalência de solidão em Portugal foi 16,3%.

Verificou-se também que a solidão aumentou com a idade: 9,9% dos 50-64 anos; 16,3% dos 65-74 anos; 20,9% dos 75-84 anos e 26,8% com 85 anos ou mais.

Neste estudo, as mulheres reportaram maiores níveis de solidão (20,4%) do que os homens (7,3%) e foi mais frequente em pessoas viúvas (30,6%) e em solteiros (15,8%) do que em pessoas casadas (9,2%).

Também pessoas com menor escolaridade apresentaram valores elevados (25,8%).

Se entre 2009 e 2021 houve um aumento exponencial do envelhecimento da população, naturalmente isto significa que o número de pessoas com mais idade que sofre de solidão aumentou. Assim, estudos comunitários indicam que entre 14% e 36% das pessoas com mais de 65 anos refere sentir sentimentos de solidão 8.

Neste seguimento, outro estudo, realizado pela CINTESIS e Administração Regional de Saúde no Norte, revela que 91% das pessoas com 65 anos ou mais, acompanhados pelos cuidados de saúde primários, sentem algum grau de solidão e um terço mostram níveis graves 9.

Através do mesmo estudo foi possível compreender quais os fatores associados à solidão e quais os fatores protetores. Assim, ter mais de 80 anos, viver sozinho, ter um baixo nível educacional (menos de 9 anos de estudos), estar insatisfeito com os seus recursos económicos e estar inserido numa estrutura familiar disfuncional são fatores que se associam à solidão. Ao invés, estar casado ou em união de facto e manter uma atividade profissional emergiram como fatores protetores.

A propósito da realidade de viver sozinho, segundo os Censos 2021 do Instituto Nacional de Estatística, sabe-se que em Portugal 517 mil pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas 10.

Por fim, a pandemia acentuou níveis de solidão nos mais jovens em Portugal.

Entre 3 e 5 de Março de 2021, foram inquiridas 2273 pessoas em Portugal Continental, Açores e Madeira, entre os 16 e 75 anos, numa iniciativa liderada pelo Rep. Circle – The Reputation Platform, com parceria com o consultor e escritor brasileiro Celso Grecco 11.

Os jovens entre os 16 e 25 anos foram os que mais sofreram de solidão no período pandémico. Os resultados acrescentaram que 57,7% dos jovens inquiridos sentiram falta de companhia, 68,7% disseram sentir-se infelizes ao fazerem coisas sozinhos, 54,7% sentiram-se incompreendidos e 41,6% sentiram-se excluídos por outras pessoas.

Referências

  1. Berlingieri, F., Colagrossi, M. & Mauri, C. (2023). Loneliness and social connectedness: insights from a new EU-wide survey, European Commission, 2023, JRC133351.
  2. Berlingieri, F., Casabianca, E., Colagrossi, M., Dhombres, B., Kovacic, M., Mauri, C., Nurminen, M., Schnepf, S.V. and Stepanova, E., Key messages and policy recommendations of the one day conference on “Loneliness in the European Union: Policies at work”, Publications Office of the European Union, Luxembourg, 2023, doi:10.2760/592074, JRC134975.
  3. Surkalim D L, Luo M, Eres R, Gebel K, van Buskirk J, Bauman A et al. (2002). The prevalence of loneliness across 113 countries: systematic review and meta-analysis BMJ 2022; 376 :e067068 doi:10.1136/bmj-2021-067068
  4. https://www.who.int/teams/social-determinants-of-health/demographic-change-and-healthy-ageing/social-isolation-and-loneliness
  5. https://www.moailabs.eu/el-proyecto/
  6. Villafranca, R. R., Jiménez, A.T., Garcia, J. M. F., Hernández, F.R., & Sonat, D. (2023). Resumen Ejecutivo: Estudio sobre juventud y soledad no deseada en España. Observatorio Estatal de la Soledad No Deseada, 2023. https://www.soledades.es/sites/default/files/contenidos/ResumenEjecutivo_Versi%C3%B3n%20final_accesible.pdf
  7. Paúl, C., & Ribeiro, O. (2009). Predicting loneliness in old people living in the community. Reviews in Clinical Gerontology. 19. 53-60. 10.1017/S0959259809990074
  8. Araújo, Lia., Ayala, Alba., Calderon-Larranaga, Amaia., Fernandez-Mayoralas, Gloria., Forjaz, Maria João., Gonzalez-Herrera, Antonio …Zorilla-Munoz, Vanessa (2021). Dar qualidade de vida aos anos. https://repositorio.ipv.pt/bitstream/10400.19/6852/1/2021_Policy%20brief_PT.pdf
  9. Sistema Nacional de Saúde. (2019). Estudo: Impacto da Solidão em Idosos. https://www.sns.gov.pt/noticias/2019/07/22/estudo-impacto-da-solidao-em-idosos/
  10. https://www.pordata.pt/db/portugal/ambiente+de+consulta/tabela
  11. Re.Circle – The Reputation Platform. (2021). O impacto da solidão na produtividade das empresas. https://reputationcircle.pt/wp-content/uploads/2021/08/Relat%C3%B3rio-Solid%C3%A3o_compressed-1.pdf