Importância do Tema

A solidão é um problema complexo, societal e um fenómeno em crescimento, que afeta pessoas de todas as idades e que tem impacto na saúde mental e física, bem-estar das pessoas e nos resultados económicos e sociais de cada país.

A solidão afeta uma parte substancial da população da Europa. Contudo, existem algumas diferenças entre países resultantes de particularidades culturais e demográficas, bem como, dos métodos recolha de amostragem utilizados nos diferentes estudos já realizados.

A pandemia COVID-19 assim como os problemas decorrentes da guerra, tal como o aumento do custo de vida, deram ênfase e exacerbaram o problema da solidão demonstrando a importância de/a:

  • Combater o estigma que lhe está associado;
  • Desenvolver melhores medidas e instrumentos de avaliação da Solidão;
  • Realizar mais investigação de forma a melhorar o estudo e a compreensão do fenómeno, nomeadamente sobre o impacto da cultura e expectativas.

 

Dada a importância do tema, a União Europeia elaborou o relatório “Loneliness in EU: Insights from surveys and online media data” (Baarck et al., 2021) no qual foram abordados os seguintes temas:

  • Prevalência da Solidão nos países Europeus;
  • Fatores de risco (foram considerados como fatores de risco a idade, o nível de rendimentos; a educação e acontecimentos de vida negativos);
  • Fatores de proteção (a existência de relações significativas e de contactos sociais regulares parecem reduzir o risco de solidão);
  • Vulnerabilidades (as Pessoas com Demência, Cuidadores, os grupos minoritários, incluindo pessoas descendentes de imigrantes e da comunidade LGBTQIA+ estão mais vulneráveis e propensos a sentir solidão).

 

A prevenção e o combate à Solidão requerem sempre que em qualquer intervenção haja uma articulação e colaboração em diferentes níveis: local, nacional e internacional. Desta articulação resulta uma abordagem com melhores resultados e mais duradouros.

Os custos que a Solidão tem em cada país são enormes. Em Portugal, os custos associados à solidão e ao seu combate não são claros. Em Espanha estima-se que resulte num custo de 14,141 milhões de euros (1,17% do PIB espanhol) (Villafranca, et. al., 2023).

O que é?

Com certeza já ouviu falar e sentiu solidão. Se fosse perguntado a diversas pessoas “o que é solidão?” certamente teríamos respostas diferentes e todas corretas. Tal demonstra o quão difícil é obtermos uma definição universal.

Existem numerosas definições de solidão, que se focam nas suas diferentes dimensões, tais como: cognitiva (expetativas das pessoas em relação aos seus relacionamentos e forma de lidar com situações adversas); social (necessidades sociais não cobertas) e emocional/relacional (capacidade da pessoa manter relacionamentos significativos, próximos e de intimidade).

A Solidão pode ser definida como uma “sensação perturbadora que acompanha a percepção de que as necessidades sociais não estão a ser satisfeitas, no que toca à sua quantidade e qualidade, nas nossas relações sociais (Hawkley & Cacioppo, 2010). Isto explica que nos possamos sentir sozinhos mesmo na presença de outras pessoas.

Às vezes, a solidão é confundida com o conceito de isolamento e solitude. Assim importa distinguir os mesmos:

O isolamento social é a condição, objetiva, de falta de contacto ou interacção social. Está associado ao número e tipo de conexões sociais que temos. Ou seja, a inexistência ou

existência de um número muito reduzido de relações sociais. Não é necessariamente interpretado como uma situação negativa.

A solitude refere-se à escolha de estar sozinho e ser feliz com essa escolha. É feito de forma deliberada, consentida e positiva.

A solidão ao longo do ciclo de vida

Existem situações/factores que podem ser causas de SND em qualquer etapa de vida, tais como: falta de recursos financeiros, mudança de domicílio, perdas e lutos, discriminação por incapacidade, violência, processos de migração, COVID-19 e epidemias similares, hospitalizações, institucionalização em centros de acolhimento temporário, lares de infância e juventude, em lares residenciais para a deficiência, lares de idosos, em situação de reclusão (prisão, conventos).

Por outro lado, existem situações características de cada etapa do ciclo vital.

Infância

  • Separação dos pais
  • Guarda partilhada
  • Pouco tempo partilhado com o Pai e Mãe
  • Falta de brincar na comunidade, na rua
  • Falta de tempo para brincar devido à carga escolar
  • Ausência de companheiros de brincadeira
  • Uso excessivo das novas tecnologias
  • Situações de bullying
  • Rejeição do grupo de pares
  • Viver num ambiente abusivo

Adolescência e Juventude

  • Separação dos pais
  • Pressões próprias da adolescência
  • Falta de contacto com a natureza
  • Carência de amizades íntimas
  • Não aceitação do grupo de pares
  • Falta de relações de casal
  • Situações de bullying
  • Violência no namoro
  • Uso excessivo das novas tecnologias
  • Viver num ambiente abusivo

Adultez

  • Separação ou divórcio 
  • Ausência de relações de amizade intimas
  • Viver numa família monoparental
  • Violência doméstica
  • Deterioração da saúde
  • Falta de tempo para lazer e ócio
  • Stress e estilo de vida mais acelerado
  • Múltiplos papéis da mulher na sociedade
  • Emancipação dos filhos
  • Perda de trabalho
  • Desemprego de longa duração
  • Ser cuidador de pessoa com dependência
  • Viver com incapacidade
  • Ser dependente de cuidados de terceiros
  • Tornar-se sem abrigo
  • Pais recentes
  • Ser vítima de burla

Velhice

  • Perda do parceiro e  de relações sociais próximas
  • Falta de relações íntimas e de sexualidade
  • Presença de doenças mentais ou limitações físicas
  • Deterioração da saúde 
  • Redução de atividades sociais (por falta de respostas na comunidade, por falta de recursos económicos com pensões diminutas e/ou acréscimo de despesas de saúde, por falta de vontade do próprio)
  • Viver com incapacidade
  • Ser pessoa dependente recetora de cuidados
  • Emancipação dos filhos
  • Violência doméstica
  • Reforma
  • Conflitos familiares
  • Abandono dos filhos e familiares próximos (aquando da instituicionalização)
  • Proximidade com o fim de vida
  • Idadismo (ser vítimas de crenças relacionadas com a idade – “não conseguir tomar decisões”

Quem é afectado pela solidão

A SND pode atingir todas as pessoas de todas as idades, mas em especial:

  • Idosas, especialmente com mais idade (em situação de isolamento e em luto)
  • Mais jovens, dos 18 aos 24 anos (devido ao processo de construção da identidade e às alterações que impactam nas suas relações)

A prevalência da solidão parece assim fazer uma curva em U à medida que avançamos nas faixas etárias (Dykstra, 2009). Relativamente à idade, alguns estudos indicam que pelo menos 40% das pessoas inquiridas com mais de 60 anos reportaram sentirem-se sozinhas durante pelo menos parte do tempo (Qi et al., 2023).

No que toca ao auto-reporte de solidão moderada a severa, este estudo europeu indica 44% na faixa etária dos 15-24, 26% nos 25-44 e 42% nas pessoas com pelo menos 80 anos.

No que toca a estatísticas mais locais, um estudo português, realizado no Sistema Nacional de Saúde (2019), no âmbito dos cuidados de saúde primários, aponta que 91% dos idosos seguidos neste contexto revela sentir algum nível de solidão, sendo que um terço destas pessoas refere níveis graves de solidão – e estes são números pré-pandemia COVID19.

Atinge também preferencialmente pessoas:

  • Com baixos rendimentos e que vivem em bairros de vizinhança mais pobres/piores condições
  • Que vivem sozinhas, solteiras ou viúvas
  • Com deficiência física e défices sensoriais
  • Cuidadoras
  • Recém-mães
  • Estudantes
  • Refugiados, migrantes e de grupos étnicos minoritários


Relativamente aos refugiados, migrantes e de grupos étnicos minoritários, o relatório divulgado pelo Centro de Investigação da Comissão Europeia em 2023 (Berlingieri et al., 2023), revela que grupos minoritários, incluindo descendentes de migrantes e comunidade LGBTQIA+ estão em maior risco de sofrer de solidão.

As causas da solidão para a população migrante e de minorias foram identificadas pelo estudo da Universidade de Sheffield (Salway et al., 2020) e são:

  • Falta de interacções sociais positivas – dificuldade em ter relações recíprocas, em que a pessoa possa ser autêntica;
  • Interacções sociais negativas – relações que não permitem actividades sociais valorizadas e igualitárias;
  • Não se sentir valorizado – ter a percepção que o seu papel social não é valorizado pelos outros;
  • Insatisfação com os laços sociais existentes – existência de uma grande disparidade entre o que se deseja e o que se tem.


Segundo o mesmo estudo, o acesso e o sucesso das intervenções nestes grupos podem ser dificultados por diversos fatores, tais como:

  • Pessoais (falta de autoconfiança, medo, barreiras linguísticas, perda do seu papel social, problemas de saúde, recursos materiais, familiaridade, idade, fase da vida, e género e espiritualidade/religião);
  • Familiares (perda de suporte e laços familiares, fonte de stress e suporte negativo, responsabilidades e estigma);
  • Comunitárias (sentir que não é bem vindo, relações pobres ou de conflito com os vizinhos, transporte);
  • A nível organizacional (alienação dos sistemas e processos, micro agressões institucionais através de comentários e comportamentos negativos);
  • Em níveis sociais mais amplos (a existência de uma representação negativa dos migrantes e minorias étnicas na comunicação social e nos discursos políticos, vários eventos que causam um sentimento de inseguridade e não pertença)


Sentir que não se é bem-vindo, experiências de racismo na comunidade também podem limitar as interações sociais, o sentimento de isolamento e de não pertença.

Tipos de solidão

Existem diversas classificações de Solidão, segundo o seu padrão/evolução e as circunstâncias/contextos em que ocorre.

A solidão pode ser dividida em dois tipos, tendo em conta o seu padrão e evolução: transitória e crónica (Qi et al., 2023) e em quatro tipos, de acordo com as circunstâncias e contextos: situacional, social, emocional e existencial.

Fatores que influenciam a SND

A Solidão pode resultar de factores estruturais, tais como:

  • Falta de Serviços/Apoios locais da Comunidade onde vive
  • Isolamento geográfico – Viver em áreas remotas/isoladas, onde existem poucas oportunidades ou acesso a apoios sociais pode contribuir para a Solidão Não Desejada (Perissinotto et al, 2012)
  • Arquitectura do Bairro e espaços públicos (aspectos ligados à segurança como luminosidade, trilhos para caminhar ou existência de espaços comuns que permitam a socialização, o contacto com a natureza, as relações próximas de vizinhança e convívio intergeracional)
  • Normas sociais e culturais existentes.

O sentimento de Solidão Não Desejada pode ser influenciado por outros factores, entre eles:

  • Fatores pessoais: Medo da rejeição ou julgamento dos outros; Baixa autoestima, acreditando que não se é digno de amor ou amizade; Carência/dependência/necessidade de validação excessiva do outro; Dificuldade em lidar com a intimidade (desabafar, mostrar as fragilidades); Dificuldades de comunicação (não escutar o outro; não ser objetivo; não comunicar as suas necessidades); Rotinas pouco satisfatórias; Estilos de coping (maneira como as pessoas lidam com as adversidades) pouco adaptativos;
  • Ausência de relações sociais significativas (Hawkley & Cacioppo, 2010);
  • Alterações de vida: transições significativas como mudanças de emprego, divórcio, luto ou mudança para uma nova cidade podem potenciar os sentimentos de solidão (Luhman & Hawkley, 2016)
  • Barreiras Sociais: como ser alvo de discriminação, estigma, ou dificuldades de comunicação podem dificultar o estabelecimento de relações sociais significativas (Jetten et al, 2012)
  • Factores demográficos: Factores como a idade avançada, estado civil, estatuto sócio-económico e saúde física também podem influenciar os níveis de solidão (Holt-Lunstad et al, 2015);

Impactos na saúde e bem-estar

A qualidade percebida das relações sociais é um dos maiores preditores de saúde e esperança de vida. Assim, torna-se claro o efeito destrutivo da Solidão Não Desejada na saúde e qualidade de vida de quem dela sofre. A OMS refere que pessoas que se sintam sós têm um risco (Carbone et al., 2022; World Health Organization, 2021):

  • 50% superior de desenvolver demência
  • 30% maior de risco de sofrer de AVC ou doença cardiovascular
  • 25% superior de morte prematura
 

Adicionalmente, estudos que comparam factores de risco como a poluição do ar, obesidade, consumo de álcool e tabaco e isolamento social, concluíram que o impacto do isolamento social na saúde é muito mais significativo que qualquer um dos restantes factores (Holt-Lunstad et al., 2015).

Assim, as consequências da solidão na Saúde, Bem-Estar, Qualidade de Vida e na Sociedade estão bem descritas na literatura:

Saúde

  • Problemas de saúde cardiovasculares, aumento da pressão arterial, maior risco de AVC, diabetes, obesidade, etc.
  • Enfraquecimento do sistema imunitário
  • Alterações de memória e dificuldades de concentração (Cacioppo & Hawkley, 2009);
  • Aumento do stress percebido (Hawkley & Cacioppo, 2010);
  • Alterações do sono, incluindo insónia e outros distúrbios do sono (Cacioppo & Hawkley, 2009)
  • Aumento do risco de depressão e ansiedade (Cacioppo & Hawkley, 2009);
  • Aumento do risco de suicídio
 

Bem-Estar e Qualidade de Vida

  • Adoção de hábitos de vida pouco saudáveis (ausência de atividade física, alimentação deficiente, abuso de medicamentos e drogas, consumo de álcool e tabaco);
  • Mudanças de humor frequentes, apatia e inércia;
  • Diminuição da auto-estima e auto-eficácia : sentimentos de solidão podem levar a uma diminuição da auto-estima e da auto-eficácia, influenciando a auto-percepção e a capacidade de lidar com desafios (Heinrich & Gullone, 2006). Por outro lado, uma auto-estima reduzida poderá influenciar o estabelecimento de relações sociais significativas, contribuindo para um sentimento de solidão.
 

Sociedade

  • Aumento da integração em respostas sociais (centros de dia, lares);
  • Aumento do número de idas à urgência, hospitalizações e consultas (muitas pessoas procuram os médicos para ter com quem falar e para serem tocadas)

Referências

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